NA MINHA IDADE...4 / BLOG AO PÉ DO OUVIDO
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Na Minha Idade...4
Quando a Onda Não Nos Leva
Há momentos da vida em que percebemos, com uma clareza quase dolorosa, que o tempo tem sua própria maneira de tocar o que amamos. Ele não pergunta, não avisa, não negocia. Ele apenas chega. É como uma onda enorme, grande demais para ser contida, e aí muda o desenho da nossa praia, onde sempre vivemos. E o mais surpreendente é que, muitas vezes, essa onda não nos atinge diretamente. Ela não nos derruba, não nos arrasta, não nos destrói. Ela passa por nós como se soubesse que ainda precisamos ficar de pé.
Mas leva coisas.
Leva hábitos que já não cabem. Leva rotinas que já não fazem sentido. Leva forças que antes estavam ali sem esforço. Leva versões antigas de nós mesmos que, por mais queridas que tenham sido, não podem seguir adiante conosco.
E ficamos ali, na areia, olhando o mar se fechar sobre o que foi. Sentindo a mistura estranha de dor e aceitação. De saudade e alívio. De resistência e rendição.
É nesse instante que a vida nos ensina algo precioso: nem tudo o que vai embora é perda — às vezes é passagem.
A onda não nos leva porque ainda há caminho para viver. Ainda há corpo para habitar. Ainda há beleza para descobrir. Ainda há novas formas de existir que só se revelam quando deixamos que o velho se vá.
Para mim, envelhecer também é isso: perceber que a vida continua, mas não continua igual. Que o corpo muda, o ritmo muda, o gosto muda, o espelho muda. E que, apesar de tudo isso, há uma dignidade profunda em acompanhar essas mudanças com verdade.
Não é fácil. Mas é real. E o real, quando aceito, tende a se tornar mais leve.
A onda leva o que já cumpriu seu papel. E deixa conosco aquilo que ainda pode florescer.
O segredo é não correr atrás do que o mar levou. É respirar fundo, sentir os pés na areia, e perguntar: “O que nasce agora, na minha idade?”
Porque sempre nasce algo. Sempre.
E quando nasce, vem com a serenidade de quem já viu muitas ondas — e aprendeu que permanecer é, muitas vezes, o maior ato de coragem.

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