segunda-feira, 24 de fevereiro de 2025

O MEDO DE SENTIR MEDO

O MEDO DE SENTIR MEDO



Certo dia, numa conversa com amigos, alguém disse que tinha medo de sentir medo. Surgiram alguns comentários, a respeito das vezes que receamos isso ou aquilo, sobre traumas antigos e aprendizagens na infância, mas todos concordaram que esse é um medo antecipado e que traz consigo um efeito paralisante, pois no mundo interno as ameaças estão realmente acontecendo no momento presente. Na nossa conversa também lembramos de quando terapeutas indicavam um exercício para pessoas que iriam fazer palestras com o tal medo de sentir medo. Elas deveriam escrever todas as situações catastróficas que poderiam ocorrer no tal evento, exagerando bem, e fazer essa leitura em voz alta várias vezes por dia. As situações então se tornavam absurdas, e até cômicas, com um tal de tropeçar, pessoas rindo do palestrante, roupas rasgadas, etc, Funcionava? Claro, desde que as pessoas soubessem sobre o que iriam falar.

Mas, lembrança à parte, em regiões de conflitos, em estados de guerra, as coisas são muito diferentes. E como! As situações absurdas se tornam reais, imprevisíveis, e não é imaginação. Os traumas, além de não serem antigos, ainda estão acontecendo! São atualizados a cada momento com as novas informações sobre escaladas perigosas da violência. Sustos acontecem, e então, todas aquelas teorias, (o vício das mentes que amam discutir o sexo dos anjos), não dão conta do tal medo de sentir medo. Como uma espécie de segundo fôlego, acontece um tipo de anestesia necessária à sobrevivência, não somente física, mas também emocional. E, junto com ela é criado um novo jeito de se ficar atento, uma cautela para evitar relaxamentos longos ou profundos, e ao mesmo tempo buscar um ponto de equilíbrio, para que não se sucumba totalmente ao estresse enquanto são assimiladas as medidas de proteção. Isso sem falar na tristeza e nos outros sentimentos que desaguam e nos fazem chorar, mas isso fica para outro momento.

Vamos tentando substituir o medo de sentir medo retirando de nossas bagagens existenciais as respirações e os suspiros que acalmam os ânimos, os exercícios que prometem fortalecimento em vários níveis, as atividades envolventes que distraem os pensamentos indesejados, e o que mais conseguirmos inventar. A ideia é alcançar, pelo menos por algum tempo, a abertura para a vida que segue, no aqui e no agora. E vamos combinar, de preferência abrindo o coração para a esperança de que haja justiça, de que haja paz!   


sexta-feira, 8 de novembro de 2024

Resiliência, a ordem do dia


                  RESILIÊNCIA, A ORDEM DO DIA

Estamos vivendo tempos difíceis. Em todos os cantos do planeta nos rondam desafios vindos ou dos homens e de seus conflitos em vários níveis, ou da própria natureza revoltada. Situações arriscadas, perigosas, nos tiram rapidamente de zonas de conforto, ocasionando mudanças bastante sérias em nossas vidas. E se não há como fugir do que sentimos diante de tais ameaças constantes e surpreendentes, vamos combinar que resistir a tais choques e tomar decisões urgentes em momentos assim não é coisa para amadores.   

Dizem os sábios que resiliência é a capacidade de voltar ao nosso estado normal. E eu pergunto: o que a palavra normal significa nos dias de hoje?  Qual é o ponto de equilíbrio entre as tensões que se repetem, imprevisíveis e que nos obrigam a estarmos alertas o tempo todo, e um mínimo de relaxamento? Então, para fins de reflexão, digamos que a resiliência envolve um tipo especial de administração, na área do domínio das emoções. Respirações, meditações, reflexões e conversas com amigos, exercícios físicos e psíquicos, música, estudos, entrada em grupos online ou não, leituras, ressignificações de valores e crenças, técnicas alternativas e energéticas presenciais ou à distância as mais diversas, e outras, cujas metas envolvem o encontro da coragem para prosseguirmos em direção à tal normalidade.

 Lembro-me de livros e depoimentos onde seus autores nos contam que suas superações, em diferentes situações, se deram quando o medo foi transmutado em coragem, simplesmente porque a única alternativa existente era essa. Se a coragem costuma aparecer na hora do enfrentamento, tudo indica que de nada adianta negarmos o medo. Ele é inevitável, e devemos deixar que nos ensine sobre o fortalecimento que necessitamos, nos tornando hábeis em transformações de nossos pontos fracos. Não é uma tarefa simples, mas é assim que se mobilizam os recursos para os próximos desafios, abrindo a porta para uma espécie de segundo fôlego. Um, dois, três e já...vida que segue!

quinta-feira, 3 de outubro de 2024

SOBRE CORAGEM

                         SOBRE CORAGEM


 


Era um final de tarde quando a sirene tocou me lembrando estarmos em guerra em Israel, e nem tinha precisado de tanto controle do celular para poder ouvi-la se tocasse. A surpresa me pegou e não sei descrever o que senti. Apenas me dirigi para a porta, ligada no piloto automático, sem lembrar do celular, e segui os vizinhos em direção ao refúgio logo acima de minha casa. Não sei dizer se foi o medo ou as sequelas de ex-fumante, talvez ambos, mas cheguei ali sem fôlego, me sentindo mal, a ponto de cair. Mas, consegui me aguentar, sentei-me numa das cadeiras, com muitas outras pessoas, esperei os dez minutos necessários, e voltei para casa. Levei uns três dias para me reequilibrar. “Marinheira de primeira viagem”, falei com amigos, pedi ajuda à espiritualidade, perdi a fome, a esperança, e me senti dominada pelo medo. Lentamente fui me acalmando, observando que as pessoas prosseguiam com suas vidas, e libertei-me do stress agudo. Da segunda vez, estava relaxada, o alarme tocou e levei um susto daqueles, mas consegui pegar o celular, calçar os sapatos e abrir a porta, enfrentando o sol escaldante. Dominei o fôlego respirando fundo até que um vizinho me deu a mão e foi me levando até lá em cima onde outros já estavam refugiados. Dias depois fiz esse mesmo percurso, mais esperta, levando minha bolsinha com uma garrafinha de água (que agora dorme próxima à porta), celular no bolso. Não dá para se acostumar com esse tipo de coisa sem pagar o preço, e no meu caso, o estômago ficou revirado por dias seguidos com o medo fazendo das suas.  Na gangorra das emoções ele fica lá embaixo, prendendo a coragem que não consegue descer e se equilibrar.  

Nem sempre temos consciência imediatamente das mudanças que acontecem conosco quando além de sabermos, vivenciamos algo. Decisões urgentes vão nos transformando, e ao nosso jeito de ser e estar nessa vida, empurrando as dúvidas para dar espaço às novas informações apressadas que estão chegando. E, na busca de sentido, de significado, nós vamos interpretando, conectando, tirando conclusões sobre as nossas novelas e novelos, enfrentando as provas com coragem.  Prosseguimos, seguimos adiante, valorizando aquilo que realmente é importante para cada um de nós, retirando o véu que encobre a força que vem dos enfrentamentos. 

Através do medo, eu trouxe um guerreiro para minha consciência, e a coragem vem aprendendo a descer da gangorra. Finalizo lembrando Viktor Frankl: “Não é o que você espera da vida, mas o que a vida espera de você”.  

sábado, 7 de setembro de 2024

LÁ NA VARANDA...

  

                             LÁ NA VARANDA...



Depois de examinar o local como quem vai alugar apartamento, um passarinho construiu seu ninho numa viga perto do teto da minha varanda. Ia trazendo folhas e galhos, instalou-se, e não foi difícil perceber que se tratava de uma futura mamãe, pois um de seus ovinhos caiu no chão da varanda. E assim, todas as manhãs, vê-la chocando passou a fazer parte de minhas meditações. Reparei que de vez em quando ela desaparecia e depois regressava ao ninho e lá ficava. Quem sabe, entediada, queria mudar de ares, piar um pouco com companheiros, voar pelas árvores? Eu acompanhava o processo, e pensava com meus botões sobre a maternagem, sorrindo com as minhas próprias lembranças.
Uns dias depois, vi duas novas carinhas de passarinhos lá em cima. Um dos filhotes deixou o ninho rapidamente, bateu suas asas e voou. O outro ficou tentando voar, batia as asinhas, e desistia, voltando para o ninho. Sua mãe vinha de vez em quando olhar como iam as coisas, dava a ele comida bico a bico e ia embora. Respeitava o seu tempo, e sem saber ela estava me ensinando a fazer o mesmo: cuidar amorosamente, mas sem apegos paralisantes, choros e expressões de abandono ou de rejeição. Assim, a dedicação ao filhote não impediu a natureza de fazer seu papel. Um dia, como era de se esperar, o segundo passarinho também abriu suas asas e voou. Pelas leis do reino das aves a missão estava cumprida, e o ninho ficou vazio. Mas, não por muito tempo, porque novos pássaros vieram, e acostumei-me a vê-lo ocupado desde então.
Muitas vezes damos pouca atenção às mensagens da natureza, deixando passar lições importantes sobre a vida naquilo que nos cerca. Ali, da minha varanda, fui conectada ao tema do ninho vazio, àquilo que nos remete à passagem do tempo, quando trabalhos se encerram, filhos crescem e vão em busca de seus próprios espaços. E o envelhecimento simplesmente acontece, refletindo em nossos espelhos as inúmeras transformações. Convida-nos também a dar uma revoada, buscando folhas para nosso ninho, significados para a nova fase que se inicia. Ao abrirmos nossas asas, lá de cima visualizamos caminhos percorridos, algumas despedidas, superações, é verdade. Mas também enxergamos possibilidades de crescimento, evolução. É a mágica da vida que segue, felizmente sempre trazendo mudanças. Saudades inevitáveis à parte, agora, em nossos voos, as boas lembranças nos acompanham, iluminam os rumos, para nos sentirmos como pássaros retornando aos ninhos, acalentando novos sonhos.