O MEDO DE SENTIR MEDO
Certo dia, numa conversa com amigos, alguém disse que tinha medo de sentir medo. Surgiram alguns comentários, a respeito das vezes que receamos isso ou aquilo, sobre traumas antigos e aprendizagens na infância, mas todos concordaram que esse é um medo antecipado e que traz consigo um efeito paralisante, pois no mundo interno as ameaças estão realmente acontecendo no momento presente. Na nossa conversa também lembramos de quando terapeutas indicavam um exercício para pessoas que iriam fazer palestras com o tal medo de sentir medo. Elas deveriam escrever todas as situações catastróficas que poderiam ocorrer no tal evento, exagerando bem, e fazer essa leitura em voz alta várias vezes por dia. As situações então se tornavam absurdas, e até cômicas, com um tal de tropeçar, pessoas rindo do palestrante, roupas rasgadas, etc, Funcionava? Claro, desde que as pessoas soubessem sobre o que iriam falar.
Mas, lembrança à parte, em regiões de conflitos, em estados de guerra, as coisas são muito diferentes. E como! As situações absurdas se tornam reais, imprevisíveis, e não é imaginação. Os traumas, além de não serem antigos, ainda estão acontecendo! São atualizados a cada momento com as novas informações sobre escaladas perigosas da violência. Sustos acontecem, e então, todas aquelas teorias, (o vício das mentes que amam discutir o sexo dos anjos), não dão conta do tal medo de sentir medo. Como uma espécie de segundo fôlego, acontece um tipo de anestesia necessária à sobrevivência, não somente física, mas também emocional. E, junto com ela é criado um novo jeito de se ficar atento, uma cautela para evitar relaxamentos longos ou profundos, e ao mesmo tempo buscar um ponto de equilíbrio, para que não se sucumba totalmente ao estresse enquanto são assimiladas as medidas de proteção. Isso sem falar na tristeza e nos outros sentimentos que desaguam e nos fazem chorar, mas isso fica para outro momento.
Vamos tentando substituir o medo de sentir medo retirando de nossas bagagens existenciais as respirações e os suspiros que acalmam os ânimos, os exercícios que prometem fortalecimento em vários níveis, as atividades envolventes que distraem os pensamentos indesejados, e o que mais conseguirmos inventar. A ideia é alcançar, pelo menos por algum tempo, a abertura para a vida que segue, no aqui e no agora. E vamos combinar, de preferência abrindo o coração para a esperança de que haja justiça, de que haja paz!