quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Limoeiro

Um dia me disseram que eu era como o limoeiro: corta-se de um lado e cresce de outro. Adorei a comparacao, porque reflete exatamente como me sinto. Durante esses quatro anos em Israel, muitas aguas rolaram, (lagrimas tambem), mas mantive o sorriso em nome da evolucao.


A cada desafio (e nao foram poucos), um novo processo psicologico era iniciado, e os que temem olhar para dentro de si mesmos que me perdoem, mas a Alia passa por um bom “pente fino” nas emocoes, nos velhos padroes, e nas escolhas a serem feitas no novo pais.

A minha grande aventura se deu no campo profissional, ja que todo o meu trabalho sempre esteve relacionado ao meu proprio equilibrio emocional. Jamais acreditei que se poderia atender alguem sem esse ingrediente, e creio que as pessoas lucidas examinam, mesmo que intuitivamente, quem elegem como terapeuta quando buscam ajuda, porque a primeira pergunta, talvez inconsciente, e: sera que ele(a) me segura se eu pirar? Entao, tive muito trabalho pela frente...

Aprendi aqui a ser bem mais objetiva, e ate na maneira de me expressar se notam mudancas. Escrevo o que assimilei do estilo de vida completamente modificado em Israel. Nao saberia dizer exatamente como tudo aconteceu, mas o fato e que meu relacionamento com o tempo e com o espaco e outro. Perdi a conta das vezes que mudei a decoracao dos meus quartos minimos em kibbutzim so para sentir que era um novo lugar e estava recomecando. Do mesmo jeito que faziamos no colegio ao errar um problema de matematica. Fazer de novo. E nem me lembro quantas vezes me senti uma estranha no que me ensinaram ser o ninho dos judeus. Li e reli Clarissa Pinkola Estes e seus contos, tentando reaver minha identidade de mulher criativa. Com tantas diferencas, as emocoes nublavam os pontos de intersecao, as semelhancas entre seres humanos, de qualquer pais. Durante esses anos de adaptacao, quando nao abri mao de ser verdadeira comigo mesma (o minimo que se exige de um ser humano), estudei muito, seguindo a direcao intuitiva, buscando informacao sobre tudo o que me atrevia a questionar (e nao foram poucas as questoes). Descobri muita coisa, testei novas tecnicas, encarando-me como a minha cliente mais importante. Entrei fundo no mundo espiritual, sem preconceitos, e sinto-me como se tivesse chegado de uma longa viagem, cansada, mas tranquila, com clareza de mais algumas coisas. Conclusoes, que paradoxalmente sempre sao provisorias, me levam a paz, acostumada ja a solitude, o caminho dos que sabem honrar o silencio e a reflexao profunda. Varias vezes teimamos em nao ver nossos mestres, porque se encontram do lado avesso. E por pura pirraca, perdemos o trem.

Hoje, olho para meu espaco, uma sala, dois quartos, a natureza me cercando. Aprendi a viver um dia de cada vez, elaboro meus proprios cardapios saudaveis, enquanto me digo que mereco a refeicao mais gostosa do mundo.. , e medito sobre o que tem se tornado meu trabalho de aconselhamento a novos imigrantes. Em Israel, apliquei direto a regra do “1,2,3 e la vai!”. Tem vezes que so tem um jeito: meter a cara. E assim se rompem padroes tambem. Acho que existem varias tecnicas, atualmente, para se romper padroes e bloqueios emocionais. Algumas eu utilizo, acho otimas, mas nada substitui uma visao amorosa da vida. Ela e a fonte da criatividade, contem o que e divino. Quando se ama a vida, todos os desafios sao como um jogo emocionante (lembram do “Banco Imobiliario”?), onde ha riscos e necessidade de avaliacoes constantes, mas onde tambem se age. Pensamento, palavra, acao..e a criacao foi feita. A bagagem que trago hoje comigo inclui novos paradigmas, a coragem de sentir, e a alegria de compartilhar o que aprendi como imigrante.

O limoeiro e que sabe das coisas: por aqui nao da? Tudo bem, vou por la. Mas deixar de crescer, ah, isso jamais!

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