terça-feira, 19 de outubro de 2010

Alyiando...

-Como vai a sua Alyia?

-Sao quase quatro anos de Alyia, sabia?

-Neste periodo, o universo foi justo, mas implacavel, na substituicao de seu estilo de vida.

-Nao deu a minima para meus lampejos de ressentimento em certas ocasioes. Luxos a parte, minha vida simples e rica de novos valores. Apenas hoje, gracas aos meus registros, consigo perceber o treinamento que foi morar em quartos, em espacos com desconhecidos, vivendo perto de uma familia ate entao inexistente. Mudanca na intimidade, na privacidade.

-Pois e, todas essas fases tem suas historias, as vezes duras, as vezes divertidas, mas sempre emocionantes.

-Mas, o mais importante, no novo contexto, foi a descontracao, adquirida a duras penas, diga-se de passagem. Nao mais stress, busca de sobrevivencia com altos custos. Nao mais querer provar quem sou e o que faco. Apenas alguns atendimentos psicologicos para sul americanos, porque o meu hebraico ainda nao da conta das emocoes israelenses. Mas, isso nao me angustia.

-Voce quer dizer que do ressentimento inicial pelas portas emperradas no novo pais, surgiu um encontro com suas reais necessidades?

-Isso mesmo. Acabei criando alternativas das quais me enamorei. Aceitei parar. Decidi nao mais compactuar com dramas e complicacoes no dia-a-dia. E abri meu peito para a quarta mudanca: Kibbutz Afikim, meu novo lar, que compartilho com meu filho. Fincamos a bandeira da familia num apartamento de dois quartos, depois de nossas separacoes e encontros nesse pais, porque percebemos que, pelo menos no inicio, estar mos juntos no processo de Alyia facilita a vida.

-Voce esta agora num kibbutz grande, bonito, alegre, festeiro, gente dinamica pra ca e pra la, pertinho de Tiberias, Lago Kineret, e cheio de conducao. Faz diferenca?

-E perfeito para quem, como eu, esta saindo do isolamento do ultimo kibbutz: pequeno e lindo, la no alto, conducao duas vezes por dia, e carona, carona e mais carona. Tive que fazer um esforco extra para ficar na porta levantando a mao, mas acabei aprendendo. Foi um encontro profundo com minha essencia, porque fora do meu quarto nao havia nada. Muitos livros foram baixados pela Internet, lidos e estudados. Filmes, questionamentos sobre raizes e motivacoes, e informacoes de diversas fontes sobre espiritualidade, metafisica, saude, Historia, biografias, assuntos caninos, colorir mandalas, pesquisas simples no Google do tipo requentar batatas fritas (essa ta dificil,se voce souber como, me fala) preencheram meus dias.Mas, aqui, rapidamente achei a primeira atividade em grupo: ioga.Um resgate do equilibrio em varios niveis, absolutamente necessario neste meu momento.

-Esta me parecendo que alguma coisa girou a chave...

-Ah, cortei resmungos, criticas e reclamacoes, procurando encarar cada momento como uma possibilidade de prazer, vital. Escolhi acolher o interesse demonstrado pelas pessoas que falavam comigo. Cada ato burocratico transformou-se em passeio, ar puro e flores pelo caminho. Assumi a bicicleta com cestinhas. Tornei-me uma crianca feliz brincando de casinha, cozinhando, passeando com cachorros, curiosa. Interessante, acho que essa atitude de abertura me levou a uma nova alegria: o reencontro com uma amiga que aqui deixei ha cerca de 40 anos, quando morei no kibbutz vizinho.Emocionante sentir que o tempo e pura consciencia. Um grande resgate afetivo.

-Entao voce nao precisa mais ficar mudando a decoracao da casa (desculpe, quarto que voce chamava de estudio) toda semana para sentir a energia da renovacao.

-Nao, nao. Estou aprendendo a administrar meu tempo, e a valorizar cada momento como um espaco de alegria por estar viva. Sabia que nao perco a novela brasileira das 7 da noite? E uma especie de homenagem a rotina no Brasil, finalzinho da tarde. Mas o jantarzinho e bem israelense, a base de saladas, terrina e humus. Integrar esta na ordem do dia.

-Planos para o proximo capitulo?

-Bem, meu proximo movimento possivelmente sera aprender a fazer mosaicos, um curso aqui no kibbutz. Tocar violao tambem esta nos meus planos. Estou enamorada do cantar.

-Cansou do silencio?

-De alguns silencios, sim. Mas estou amando o silencio das falas, das pressoes, das cobrancas, das expectativas, do precisar saber tudo, das agendas complicadas que sugam energia.

-Bem, isso torna a mochila bem mais leve para uma boa subida.

-Bidiuk! A ideia e essa: uma Alyia de dentro pra fora. E “be zman ha matim”.

alyia = subida
bidiuk = exatamente
be zman ha matim = no tempo certo

0 comentários: