JANEIRO DE 2010, Kibbutz Ramat Hashofet, Israel
Completei 3 anos de alia, e isso me remete as lembrancas...ao meu proprio filme, que conta sobre o salto que dei. Se valeu a pena? Ah, sempre vale! Nessa vida, creio eu, o medo de seguir o coracao e nosso pior inimigo. Divido essa experiencia em 3 fases, ate agora: Merkaz Klita, Raanana – Kibbutz Nir David – Kibbutz Ramat Hashofet. Compartilho com todos os que me procuraram perguntando como e fazer alia, e com todos os que se interessem pelo assunto. Nao e minha intencao ditar regras, ou criar um manual, isso seria insensato. Cada vivencia e unica, incluindo percepcao e interpretacao dos fatos; mas...ha sempre uma boa chance de ser util conhecer uma ola radasha, ate porque alguns padroes realmente se repetem. E o que dizem.
1a FASE:
Chegando em Raanana
Era tarde. Meia-noite, mais ou menos, quando cheguei em Tel-Aviv. Partindo do Rio de Janeiro, fui incluida num grupo de brasileiros, sendo que apenas eu me dirigia a Raanana. Ficaria no Merkaz Klita, com direito a Ulpan, e posteriormente continuaria minha carreira de psicologa em Israel. Pelo menos era o que esperava. Afinal, depois de mais de 30 anos exercendo a profissao que amo, nada mais justo que me integrar aos colegas, imaginava. Ansiosa, aguardava o taxi que a Sochnut me prometera, sem parar de pensar nos "e se?", com a nova moeda na bolsa que havia recebido. Torcia para meu ingles funcionar direitinho enquanto observava o hebraico nos letreiros do aeroporto. A porta para um mundo desconhecido estava se abrindo. Engracado, pensei, um motorista de taxi que nao me causa medo, como no Brasil. Ah, as expectativas de nossas familias judias sobre a seguranca total na Terra Prometida! Ri sozinha, mas a verdade e que estava respirando fundo, absorvendo a nova dimensao. Pronto. Ali estava o senhor que me levaria ao Merkaz Klita, encolhida de frio e assustada. Entramos no carro, e como uma crianca, pela janela ia observando as luzes e o movimento, me deixando ser guiada, entregue a memoria.
Estar em Israel novamente ...ha mais de trinta anos atras, vivi em kibbutz, entrosada com jovens como eu, e buscando respostas tipicas daquela fase de vida. Filha de lider sionista, me ocorreu que talvez uma viagem a Israel me ajudasse a esclarecer alguns caminhos. Na quarta-feira de cinzas de 1972 estava no aviao, com mais uns 40 brasileiros, casacos, luvas, meias, tocas, cachecois e uma grande aventura pela frente, la estavamos nos: a turminha dos brazucas, e eu. Comissarios enlouquecidos com os batuques e cantorias, risadas, caminhadas pelo aviao e...chegamos a Israel, onde morei por um ano. Grandes aventuras, algumas engracadas. Pegar onibus em outro idioma para ir a um lugar que nao se tem ideia, e visitar pessoas que nunca se viu nao e brincadeira.
Uma vez, sai com amigas para Tel-Aviv, com os papeizinhos onde estava escrito o endereco de uns primos de meus avos maternos, que foi uma das coisas mais sem pe nem cabeca que fiz em minha vida. Mas era uma missao imposta pela familia brasileira. Toquei o interfone, na verdade sem saber o que dizer, quem eram, nada, nenhuma informacao. Nem sei o que disse, mas como nao era Brasil, muito menos naquele tempo, eles nao entenderam nada e abriram a porta. Subimos com uma foto do meu avo nas maos, e fui logo mostrando, crente que iam chorar de emocao. Mas, torceram os labios, o casal de idosos, virando a cabeca num "nao" constrangedor. Falei nomes, conferi sobrenomes, nada. Ninguem sabia quem eram meus avos. A tal senhora serviu uns biscoitinhos, com pena da gente, e colocou umas moedas em nossas maos. Descemos as gargalhadas.
Agora, imagine uma situacao dessas sozinha...e ali estava eu, tudo diferente, madrugada gelada, fome, cansaco e confusao, apos uma longa viagem.
O porteiro do Merkaz Klita verificou meus documentos, arranhando seu espanhol, e chamou um casal de brasileiros para ajudar a me acomodar. Lindos amigos, nao canso de agradecer, Patty e Marcelo. Gostoso a gente rir tempos depois de dormir num quarto gelado, quando se abre as malas em busca de mais meias, casacos, arrumando a cama do melhor jeito possivel, uma vez que a bagagem de uma carioca era bem humilde para o inverno que me esperava. Vesti tudo que encontrei, juro! Assim, tremendo, fui ate a cozinha e engoli uns biscoitinhos que deixaram para mim, me encolhi na cama, tentando baixar a excitacao, e enfim, adormeci, sabendo que nada melhor do que uma boa noite de sono. Amanha, ou daqui a pouco, seria um outro dia.
Muitas aguas rolaram ate 2010. Penso que nao ha atalhos para um trabalho emocional. Somente a consciencia da vida a cada momento, observando a nos mesmos em acao, pode gerar a intencao, sem a qual todas as tecnicas dos mestres sao paleativos. Quando nos responsabilizamos pelas nossas decisoes e desemos transforma-las, agir de uma nova maneira e o primeiro passo. Usar as tecnicas como ferramentas da intencao, isso sim, mas sabendo para onde ir. Essa historia de seguir passes magicos para desprogramar e algo a ser estudado com carinho para que nao acabemos seguindo os bezerros de ouro, que camuflam a verdade sobre nos mesmos. Enfrentar os proprios sentimentos e o maior desafio, e criar formas de transmuta-los e a nossa tarefa. Um certo esforco e necessario, pois para isso estamos na terra, e nao para deitarmos e ficarmos a observar a repeticao infinita de nossos enganos. Coragem e isso. Quando tudo e novidade a vida tem mais graca. As vezes, quando recebo os muitos e-mails sobre a grande transformacao energetica que a Terra esta vivendo, e baixo os livros dos filosofos mais conhecidos desta nossa epoca falando sobre o aqui e agora, lembro dessas sensacoes, da novidade. Penso que o pulo do gato e saber viver as mesmas coisas de maneira diferente a cada segundo, como um rio que flui, metafora bastante tradicional. So que falar e facil. Queria ser filosofa, responder a perguntas sobre a vida, sobre a emocao, sobre a expressao da alma que tem visao infinita para qualquer evento. Por que sera que aquilo que era tao novo e deslumbrante se torna rotina, tedio?
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1 comentários:
Que forca recebo de suas palavras,que energia me da ler os seus escritos....obrigada amiga...poste sempre....
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