Por mais aberta que seja nossa mente, por mais forte que seja a motivacao, alia significa transformacao no estilo de vida. O peso da cultura, os habitos arraigados, e a pressao das novas informacoes por todos os lados; outro idioma (no caso do hebraico, uma revolucao copernica), nao mais sujeito a regras de cursinhos, mas exercendo sua autoridade em cada canto, letreiro, expressao idiomatica; nos onibus, nos supermercados, nos dialogos necessarios com funcionarios, ou mesmo pessoas na rua, a lista e interminavel. Tudo o que era feito no automatico tera que ser repensado. Algumas vezes sentimos o saborzinho de aventura, mas outras vezes a sensacao e de desespero, principalmente se precisamos pedir informacoes ou usar o telefone para solucionar duvidas. Enfim, novas mensagens e comportamentos imprevisiveis povoam o inicio dessa jornada.
No entanto, alternativas jamais imaginadas forcam a criatividade, antidoto contra a depressao pela sensacao de impotencia, liberando uma especie de segundo folego que os atletas conhecem bem. E um processo continuo de revalidacao da experiencia, para que ela nao se torne como ferias de adolescentes, que mesclam paixao e dor na busca de um rumo.
Uma das minhas experiencias marcantes nesse inicio foi dividir apartamento com uma mulher desconhecida, ja no meio de sua jornada de 6 meses no Ulpan. Nao exatamente por ela, com nossass historias pessoais se sobrepondo, mas o contraste que vivi, acostumada que estava com um estilo independente. Vi-me, de repente, num quarto (por sorte, apenas eu nele), com minhas duas malas basicas, aprendendo sobre as "normas" do novo "lar". Uma especie de hierarquia dava aquela moca um estranho poder: ordenar. Entre "isso e meu, aquilo e seu", detectava a primeira licao, a da paciencia. Abria os armarios com cuidado, imaginando se os talheres estariam etiquetados, e com a sensacao desagradavel de estar pisando em ovos (falando em ovos, foi esse o meu primeiro lanche, porque ir ao supermercado sozinha, tudo em hebraico, era tarefa dificil, entao). Acho que a minha intuicao nunca esteve tao agucada. Qualquer coisa, menos uma discussao inaugural naquela altura do campeonato. Fui adquirindo tolerancia, pois afinal, estavamos todos muito sensiveis, turmas de imigrantes, os olim, cheios de expectativas e ansiedade, buscando alternativas no pais.
E o que dizer de sair sozinha para assuntos burocraticos fundamentais no segundo dia? Deu tudo certo, desde pegar onibus e encontrar os lugares indicados para os devidos carimbos. Consegui ate comprar um cobertor novo. Somente depois dessas tarefas cumpridas sentei-me para um primeiro falafel, bolsa meio largada (isso nao tem preco!), observando as pessoas na rua, seus estilos, absorvendo os "erres" hebraicos que escutava o tempo todo atraves das permanentes conversas em celulares. Decidi entao entrar numa farmacia. O balconista estava atendendo uma senhora, e me encostei no balcao a espera da minha vez. Percebi sua cara feia, mas nao entendi, e continuei aguardando. Ele foi ficando furioso. E era comigo! Gritou, em seguida. Naturalmente, nao entendi nada. Constrangida, a senhora que estava sendo atendida me explicou em ingles que eu nao podia estar ali sem a senha. Que senha? Um papelzinho (hoje sei que isso existe em todos os lugares) que a gente pega ao entrar para esperar a vez de ser atendido. Nao pensem que nao respondi...apenas foi em portugues, e ele tambem nao entendeu nada. E la fui eu procurar o tal papelzinho, enquanto digeria o susto, e arquivava o jeitinho brasileiro. Quem sabe em outra ocasiao poderia usar meu sorriso...Estava comecando a ser vacinada.
Pois e, viver em Israel (e acho que em qualquer outro lugar) e exercitar as regras toltecas que o Miguel Ruiz cita (Os Quatro Acordos): seja impecavel com a palavra, nao faca suposicoes, nao tome as coisas como algo pessoal, e faca o melhor que puder.
E tem dado certo.
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