Numa pracinha em Haifa, observo as criancas brincando. Admiro os idosos, tao independentes, muitos deles empurrando carrinhos de bebes. Queria ter trazido a minha maquina fotografica para registrar olhares e posturas, fisionomias de quem esta em paz, que refletem gratidao. Pessoas de todo o mundo chegam a Israel e reconstroem suas vidas. Hoje eu sei que nao e facil.
Lembro-me de Porto de Galinhas, Pernambuco, 2006. Decisao tomada quanto a alia.Deitada na rede vermelha em minha pequena varanda, uma revista judaica nas maos, comeco a retirar do bau as lembrancas e expectativas sobre Israel incorporadas na infancia. Sou carioca, judia de pai e mae, com formacao basica em escolas judaicas. Mais tarde, estudei em colegio estadual. Sempre acreditei na liberdade de escolha para meus relacionamentos, sem me deixar levar por limitacoes preconceituosas. Foi, portanto, surpreendente para todos quando, aos 18 anos, integrei-me a um projeto da Sornut para morar por um ano num kibbutz. Estava iniciando os estudos universitarios na Psicologia. Terminando esse ano, voltei a Faculdade no Rio de Janeiro (UFRJ). Caminhei pela estrada da Psicologia, com paixao, ate 2006, podendo dizer que ampliei o maximo que pude a sua definicao operacional entre clinica, projetos sociais, diversas escolas de pensamento, grupos, varias idades e tecnicas, e em cidades diferentes tambem. Refletia sobre a nova grande aventura que me aguardava. Teria eu forcas para essa mudanca, nos meus quase 55 anos? Estaria fora de meu centro por desejar um outro estilo de vida, em busca das raizes? Como evitar a imagem de uma mulher desbotada, apesar do sol das lindas praias, cuja intuicao gritava que era hora de mais nutricao, de criar mais vida? Apesar dos comentarios que sutilmente questionavam minha sanidade, arrumei a bagagem para a grande transformacao: pente fino no mundinho material que havia construido em alguns anos, tao previsivel, amor, auto-valorizacao, e muita, muita coragem na bolsa de mao. Estava pronta para um mergulho no infinito das possibilidades. Enquanto me perguntava se a menina que fui me reconheceria naquele momento (e eu a ela), ia me responsabilizando pela decisao de criar uma nova realidade, que me representasse nessa altura da minha vida.
Creio que e muito mais dificil escolher novas experiencias quando elas nao sao baseadas em medos externos, mas na voz interna que pede novas aprendizagens. Nao ha, entao, a urgencia de fuga, mas a liberdade de um grande passeio, ansiando por algo novo, outros sentidos, com mais energia. Dizem os sabios que quando as licoes sao assimiladas, o cenario se fecha, e uma outra pagina da vida se apresenta diante de nos.
Ainda num estado meio contemplativo, levanto-me do banco. Esta quase na hora do meu onibus, da volta para casa, onde tambem o verde e as flores do kibbutz alimentam a alma. Guardo meus registros na bolsa, e tranquilamente misturo-me as pessoas. Sou mais uma ola radasha.
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