quarta-feira, 11 de julho de 2012

Brasil, cheguei!

2011, agosto, passagem para o Brasil em maos. Decisao tomada, muito mais dificil que a ida, o retorno, que nao pode ser nunca ao mesmo lugar e as mesmas pessoas, se acredito realmente em transformacao. E somente agora, em julho de 2012, encaro novamente esse blog, escrevendo bem lentamente sobre as marcas da experiencia de imigrante. Tenho a perfeita consciencia de que essa digestao e um processo delicado, e pacientemente me trato com delicadeza.
Voltei, apos quase cinco anos, por outro caminho, revendo amigos espalhados por outros cantos, e escolhendo como criar um estilo de vida. Uma das coisas que mais me mobilizou foi ter encontrado essa carta de Clarice Lispector:.

A Tania Kaufmann


Berna, 6 janeiro 1948


Minha florzinha,

Recebi sua carta desse estranho Bucsky, datada de 30 de dezembro. Como fiquei contente, minha irmãzinha, com certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há certas frases suas. Não diga porém: descobri que ainda há muita coisa viva em mim. Mas não, minha querida ! Você está toda viva! Somente você tem levado uma vida irracional, uma vida que não parece com você. Tania, não pense que a pessoa tem tanta força assim a ponto de levar qualquer espécie de vida e continuar a mesma. Até cortar os próprios defeitos pode ser perigoso, nunca se sabe qual é o defeito que sustenta nosso edifício inteiro. Nem sei como lhe explicar, querida irmã, minha alma. Mas o que eu queria dizer é que a gente é muito preciosa, e que é somente até certo ponto que a gente pode desistir de si própria e se dar aos outros e às circunstâncias. Depois que uma pessoa perder o respeito de si mesma e o respeito de suas próprias necessidades, depois disso fica-se um pouco um trapo.Eu queria tanto, tanto estar junto de você e conversar, e contar experiências minhas e de outros. Você veria que há certos momentos em que o primeiro dever a realizar é em relação a si mesmo. Eu mesma não queria contar a você como estou agora, porque achei inútil. Pretendia apenas lhe contar o meu novo caráter, ou falta de caráter, um mês antes de irmos para o Brasil, para você estar prevenida. Mas espero de tal forma que no navio ou avião que nos levar de volta eu me transforme instantaneamente na antiga que eu era, que talvez nem fosse necessário contar.
Querida, quase quatro anos me transformaram muito. Do momento em que me resignei, perdi toda a vivacidade e todo interesse pelas coisas. Você já viu como um touro castrado se transforma num boi ? assim fiquei eu...., em que pese a dura comparação....Para me adatar (sic) ao que era inadatável (sic), para vencer minhas repulsas e meus sonhos, tive que cortar meus guilhões, cortei em mim a força que poderia fazer mal aos outros e a mim. E com isso cortei também minha força. Espero que você nunca me veja assim resignada, porque é quase repugnante.Espero que o navio que nos leve de volta, só a idéia de ver você e de retomar um pouco minha vida, que não era maravilhosa mas era uma vida, eu me transformei inteiramente. Mariazinha, mulher do Milton, um dia desses encheu-se de diferente, não era? Ela disse que me achava ardente e vibrante, e que quando me encontrou agora e disse: ou esta calma excessiva é uma atitude ou então ela mudou tanto que parece quase irreconhecível. Uma outra pessoa disse que eu me movo com uma lasidão de mulher de cinqüenta anos. Tudo isso você não vai ver nem sentir, queira Deus.
Não haveria nem necessidade de lhe dizer, então....Mas não pude deixar de querer lhe mostrar o que pode acontecer com uma pessoa que fez pacto com todos, e que se esqueceu de que o nó vital de uma pessoa deve ser respeitado. Minha irmãzinha, ouça meu conselho, ouça meu pedido: respeite mesmo o que é ruim em você – respeite sobretudo o que você imagina que é ruim em você – pelo amor de Deus, não queira fazer de você uma pessoa perfeita – não copie uma pessoa ideal, copie você mesma – é esse o único meio de viver. Eu tenho tanto medo de que aconteça com você o que aconteceu comigo, pois nós somos parecidas. Juro por Deus que se houvesse um céu, uma pessoa que se sacrificou por covardia – será punida e irá para um inferno qualquer.
Se é que uma vida morna não será punida por essa mesma mornidão. Pegue para você o que lhe pertence, e o que lhe pertence é tudo aquilo que sua vida exige. Parece uma moral amoral. Mas o que é verdadeiramente imoral é ter desistido de si mesma. Espero em Deus que você acredite em mim. Gostaria mesmo que você me visse e assistisse minha vida sem eu saber – pois somente saber de sua presença me transformaria e me daria vida e alegria. Isso seria uma lição para você. Ver o que pode suceder quando se pactuou com a comodidade de alma. Tenha coragem de se transformar, minha querida, de fazer o que você deseja – seja sair nos week-end, seja o que for. Me escreva sem a preocupação de falar coisas neutras – porque como poderíamos fazer bem uma a outra sem esse mínimo de sinceridade ?
Que o ano novo lhe traga todas as felicidades, minha querida. Receba um abraço de muita saudade, de enorme saudade de sua irmã

Clarice.


Passei um bom tempo com essas palavras dando voltas pelas minhas emocoes, tentando recuperar o folego para entrar num aviao e simplesmente voltar. Deixei num canto, arquivados, os porques e comecei a pensar em como. Quem era eu agora? Ao mesmo tempo, um vislumbre de liberdade me trazia o ar puro novamente. Nao precisava assumir nenhum posto, colar rotulos, mas seguir meu coracao, me aventurar pelo escuro. Saltei, sem qualquer garantia, com uma bagagem diferente, que so agora posso examinar, ja acomodada num gostoso sofa brasileiro, a cada dia dando conta das novas necessidades. Um mergulho e tanto, fortalecida, vencendo o cansaco inevitavel. E escrevendo, novamente, compartilhando minhas questoes.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Limoeiro

Um dia me disseram que eu era como o limoeiro: corta-se de um lado e cresce de outro. Adorei a comparacao, porque reflete exatamente como me sinto. Durante esses quatro anos em Israel, muitas aguas rolaram, (lagrimas tambem), mas mantive o sorriso em nome da evolucao.


A cada desafio (e nao foram poucos), um novo processo psicologico era iniciado, e os que temem olhar para dentro de si mesmos que me perdoem, mas a Alia passa por um bom “pente fino” nas emocoes, nos velhos padroes, e nas escolhas a serem feitas no novo pais.

A minha grande aventura se deu no campo profissional, ja que todo o meu trabalho sempre esteve relacionado ao meu proprio equilibrio emocional. Jamais acreditei que se poderia atender alguem sem esse ingrediente, e creio que as pessoas lucidas examinam, mesmo que intuitivamente, quem elegem como terapeuta quando buscam ajuda, porque a primeira pergunta, talvez inconsciente, e: sera que ele(a) me segura se eu pirar? Entao, tive muito trabalho pela frente...

Aprendi aqui a ser bem mais objetiva, e ate na maneira de me expressar se notam mudancas. Escrevo o que assimilei do estilo de vida completamente modificado em Israel. Nao saberia dizer exatamente como tudo aconteceu, mas o fato e que meu relacionamento com o tempo e com o espaco e outro. Perdi a conta das vezes que mudei a decoracao dos meus quartos minimos em kibbutzim so para sentir que era um novo lugar e estava recomecando. Do mesmo jeito que faziamos no colegio ao errar um problema de matematica. Fazer de novo. E nem me lembro quantas vezes me senti uma estranha no que me ensinaram ser o ninho dos judeus. Li e reli Clarissa Pinkola Estes e seus contos, tentando reaver minha identidade de mulher criativa. Com tantas diferencas, as emocoes nublavam os pontos de intersecao, as semelhancas entre seres humanos, de qualquer pais. Durante esses anos de adaptacao, quando nao abri mao de ser verdadeira comigo mesma (o minimo que se exige de um ser humano), estudei muito, seguindo a direcao intuitiva, buscando informacao sobre tudo o que me atrevia a questionar (e nao foram poucas as questoes). Descobri muita coisa, testei novas tecnicas, encarando-me como a minha cliente mais importante. Entrei fundo no mundo espiritual, sem preconceitos, e sinto-me como se tivesse chegado de uma longa viagem, cansada, mas tranquila, com clareza de mais algumas coisas. Conclusoes, que paradoxalmente sempre sao provisorias, me levam a paz, acostumada ja a solitude, o caminho dos que sabem honrar o silencio e a reflexao profunda. Varias vezes teimamos em nao ver nossos mestres, porque se encontram do lado avesso. E por pura pirraca, perdemos o trem.

Hoje, olho para meu espaco, uma sala, dois quartos, a natureza me cercando. Aprendi a viver um dia de cada vez, elaboro meus proprios cardapios saudaveis, enquanto me digo que mereco a refeicao mais gostosa do mundo.. , e medito sobre o que tem se tornado meu trabalho de aconselhamento a novos imigrantes. Em Israel, apliquei direto a regra do “1,2,3 e la vai!”. Tem vezes que so tem um jeito: meter a cara. E assim se rompem padroes tambem. Acho que existem varias tecnicas, atualmente, para se romper padroes e bloqueios emocionais. Algumas eu utilizo, acho otimas, mas nada substitui uma visao amorosa da vida. Ela e a fonte da criatividade, contem o que e divino. Quando se ama a vida, todos os desafios sao como um jogo emocionante (lembram do “Banco Imobiliario”?), onde ha riscos e necessidade de avaliacoes constantes, mas onde tambem se age. Pensamento, palavra, acao..e a criacao foi feita. A bagagem que trago hoje comigo inclui novos paradigmas, a coragem de sentir, e a alegria de compartilhar o que aprendi como imigrante.

O limoeiro e que sabe das coisas: por aqui nao da? Tudo bem, vou por la. Mas deixar de crescer, ah, isso jamais!

terça-feira, 19 de outubro de 2010

Alyiando...

-Como vai a sua Alyia?

-Sao quase quatro anos de Alyia, sabia?

-Neste periodo, o universo foi justo, mas implacavel, na substituicao de seu estilo de vida.

-Nao deu a minima para meus lampejos de ressentimento em certas ocasioes. Luxos a parte, minha vida simples e rica de novos valores. Apenas hoje, gracas aos meus registros, consigo perceber o treinamento que foi morar em quartos, em espacos com desconhecidos, vivendo perto de uma familia ate entao inexistente. Mudanca na intimidade, na privacidade.

-Pois e, todas essas fases tem suas historias, as vezes duras, as vezes divertidas, mas sempre emocionantes.

-Mas, o mais importante, no novo contexto, foi a descontracao, adquirida a duras penas, diga-se de passagem. Nao mais stress, busca de sobrevivencia com altos custos. Nao mais querer provar quem sou e o que faco. Apenas alguns atendimentos psicologicos para sul americanos, porque o meu hebraico ainda nao da conta das emocoes israelenses. Mas, isso nao me angustia.

-Voce quer dizer que do ressentimento inicial pelas portas emperradas no novo pais, surgiu um encontro com suas reais necessidades?

-Isso mesmo. Acabei criando alternativas das quais me enamorei. Aceitei parar. Decidi nao mais compactuar com dramas e complicacoes no dia-a-dia. E abri meu peito para a quarta mudanca: Kibbutz Afikim, meu novo lar, que compartilho com meu filho. Fincamos a bandeira da familia num apartamento de dois quartos, depois de nossas separacoes e encontros nesse pais, porque percebemos que, pelo menos no inicio, estar mos juntos no processo de Alyia facilita a vida.

-Voce esta agora num kibbutz grande, bonito, alegre, festeiro, gente dinamica pra ca e pra la, pertinho de Tiberias, Lago Kineret, e cheio de conducao. Faz diferenca?

-E perfeito para quem, como eu, esta saindo do isolamento do ultimo kibbutz: pequeno e lindo, la no alto, conducao duas vezes por dia, e carona, carona e mais carona. Tive que fazer um esforco extra para ficar na porta levantando a mao, mas acabei aprendendo. Foi um encontro profundo com minha essencia, porque fora do meu quarto nao havia nada. Muitos livros foram baixados pela Internet, lidos e estudados. Filmes, questionamentos sobre raizes e motivacoes, e informacoes de diversas fontes sobre espiritualidade, metafisica, saude, Historia, biografias, assuntos caninos, colorir mandalas, pesquisas simples no Google do tipo requentar batatas fritas (essa ta dificil,se voce souber como, me fala) preencheram meus dias.Mas, aqui, rapidamente achei a primeira atividade em grupo: ioga.Um resgate do equilibrio em varios niveis, absolutamente necessario neste meu momento.

-Esta me parecendo que alguma coisa girou a chave...

-Ah, cortei resmungos, criticas e reclamacoes, procurando encarar cada momento como uma possibilidade de prazer, vital. Escolhi acolher o interesse demonstrado pelas pessoas que falavam comigo. Cada ato burocratico transformou-se em passeio, ar puro e flores pelo caminho. Assumi a bicicleta com cestinhas. Tornei-me uma crianca feliz brincando de casinha, cozinhando, passeando com cachorros, curiosa. Interessante, acho que essa atitude de abertura me levou a uma nova alegria: o reencontro com uma amiga que aqui deixei ha cerca de 40 anos, quando morei no kibbutz vizinho.Emocionante sentir que o tempo e pura consciencia. Um grande resgate afetivo.

-Entao voce nao precisa mais ficar mudando a decoracao da casa (desculpe, quarto que voce chamava de estudio) toda semana para sentir a energia da renovacao.

-Nao, nao. Estou aprendendo a administrar meu tempo, e a valorizar cada momento como um espaco de alegria por estar viva. Sabia que nao perco a novela brasileira das 7 da noite? E uma especie de homenagem a rotina no Brasil, finalzinho da tarde. Mas o jantarzinho e bem israelense, a base de saladas, terrina e humus. Integrar esta na ordem do dia.

-Planos para o proximo capitulo?

-Bem, meu proximo movimento possivelmente sera aprender a fazer mosaicos, um curso aqui no kibbutz. Tocar violao tambem esta nos meus planos. Estou enamorada do cantar.

-Cansou do silencio?

-De alguns silencios, sim. Mas estou amando o silencio das falas, das pressoes, das cobrancas, das expectativas, do precisar saber tudo, das agendas complicadas que sugam energia.

-Bem, isso torna a mochila bem mais leve para uma boa subida.

-Bidiuk! A ideia e essa: uma Alyia de dentro pra fora. E “be zman ha matim”.

alyia = subida
bidiuk = exatamente
be zman ha matim = no tempo certo